A solteira do século XXI acorda cedo, paga boletos, faz terapia (ou pelo menos tenta), toma café sem açúcar porque leu que faz mal, mas come chocolate escondido porque ninguém é de ferro. Ela não espera resgate, não sonha com príncipe em cavalo branco até porque cavalo dá trabalho e príncipe, ultimamente, anda raro no mercado.
Ela é livre. Livre para ir, ficar, voltar, desistir. Livre para viajar sozinha, pedir comida só para ela e comer direto da embalagem. Livre para amar a própria companhia, conversar consigo mesma e, pasme, gostar disso. O amor-próprio virou prioridade, quase um patrimônio imaterial, foi conquistado com esforço, lágrimas, decepções e alguns “nunca mais” muito bem fundamentados.
Mas nem todas as solteiras querem apenas isso. Há as que se bastam, sim, mas que também gostariam de dividir o sofá, a pizza e a vida. Não por carência isso é importante deixar claro, mas por vontade. Porque querer alguém não anula a autonomia, só acrescenta uma cadeira a mais na mesa.
O problema é o tal do “mercado de relacionamentos”. Uma espécie de feirão moderno, onde todo mundo se expõe, se vende, se anuncia e some sem explicação. Conversas começam com intensidade, terminam com silêncio e ninguém assina contrato algum. O famoso “vamos ver no que dá” virou cláusula padrão.
E para aquelas que têm critérios elevados, palavra bonita para quem aprendeu com o tempo, a dificuldade aumenta. Elas não aceitam qualquer coisa embrulhada em afeto duvidoso. Não negociam respeito, não romantizam migalhas e não confundem disponibilidade com interesse real. Preferem ficar sozinhas a mal acompanhadas, ainda que a solidão, às vezes, bata à porta sem avisar.
A solteira do presente século vive esse paradoxo diário: é forte, mas sensível, independente, mas humana suficiente para si, mas aberta ao encontro. Ela não tem pressa, mas também não perdeu a esperança. Apenas aprendeu que amor não é urgência, é escolha.
E enquanto o par ideal não aparece, ela segue vivendo. Rindo, tropeçando, amadurecendo. Porque, no fim das contas, ela já entendeu o essencial, estar solteira não é estar incompleta. É, muitas vezes, estar inteira demais para aceitar menos do que merece.
