Aos quarenta anos, João ainda chamava a mãe para perguntar onde estava sua meia social. Não por necessidade real, mas por fidelidade a um ritual antigo, quase sagrado. A diferença é que, agora, ele fazia isso segurando um celular de última geração, enquanto reclamava que “a vida adulta cobra demais”. João não estava atrasado para a escola, tampouco para a faculdade: atrasava-se, com frequência, para a própria maturidade.
A chamada adultolescência instalou-se na sociedade como um condomínio confortável: oferece liberdade sem boleto, opinião sem responsabilidade e projetos grandiosos sem prazo definido. Nela, os moradores querem ser livres, mas não independentes; desejam escolhas, mas não consequências. Afinal, crescer dá trabalho, e trabalho é algo que pode ser adiado para a próxima semana, ou para o próximo ano.
Nas casas dos pais, esses jovens de meia-idade ocupam antigos quartos de infância, agora decorados com objetos “minimalistas” comprados pela internet. O pôster do super-herói divide espaço com livros de autoajuda sobre “como encontrar seu propósito”, todos lidos até a página vinte. O propósito, aliás, segue em análise profunda, enquanto o almoço continua garantido ao meio-dia.
No mercado de trabalho, a adultolescência também faz sua aparição elegante. Busca-se um emprego que pague bem, ofereça flexibilidade total, não gere estresse e permita sair cedo para “cuidar da saúde emocional”. Diante da primeira cobrança, o adultolescente sente-se ofendido: não por errar, mas por alguém esperar que ele assuma o erro. Afinal, ninguém avisou que crescer incluía frustrações.
Os relacionamentos acompanham o mesmo compasso. Quer-se amor intenso, mas sem renúncia; compromisso, desde que não comprometa. Fala-se em construir algo sólido, desde que não seja preciso abrir mão de festas, viagens impulsivas ou da eterna possibilidade de “algo melhor aparecer”. Crescer a dois exige diálogo, paciência e maturidade, três palavras que soam quase como um idioma estrangeiro.
E assim segue a sociedade, repleta de adultos com mochilas invisíveis cheias de sonhos não desfeitos e responsabilidades não assumidas. A adultolescência não é exatamente um defeito, mas um sintoma de um tempo que prometeu felicidade imediata e esqueceu de ensinar o valor do amadurecimento. No fim, talvez crescer não seja perder a juventude, mas aprender que liberdade de verdade começa quando se paga o próprio boleto , inclusive o emocional.

