O Silêncio de Amanda

Ana Lucia Ricarte

— Eu só acho que você poderia ter escolhido outra roupa — disse Rafael, enquanto ajeitava o nó da gravata.

— Qual o problema com essa? — Amanda perguntou, sem levantar os olhos do espelho.

— Não é um problema, exatamente. Só que não combina com você. Parece que está tentando ser algo que não é.

Amanda engoliu em seco, ajeitando o tecido do vestido com as mãos.

— Eu gosto dela. Faz tempo que não uso.

Rafael sorriu, aquele sorriso enviesado que parecia um gesto de aprovação, mas que Amanda sabia carregar outra coisa.

— Tudo bem, se você acha que está bem assim. É só que… bom, não quero que se sinta deslocada lá. Mas você sabe o que é melhor para você.

Ela quis responder, dizer que estava confortável com sua escolha, mas a insegurança já tinha se instalado. A dúvida plantada como uma semente nos últimos meses agora florescia a cada conversa parecida com essa.

No caminho para o jantar, Rafael comentou sobre o prato que Amanda escolheu na última vez em que saíram:

— Você ficou bem desconfortável, lembra? Talvez seja melhor pegar algo mais… comum hoje. Só para evitar.

— Não fiquei desconfortável — rebateu Amanda, a voz baixa, quase pedindo permissão.

— Claro, claro. Eu devo ter entendido errado. Sempre entendo errado, não é?

O tom de Rafael era suave, quase gentil, mas Amanda sentiu o peso daquelas palavras como uma pedra sobre o peito. Ficou calada o resto do caminho.

No fim da noite, já em casa, Amanda sentou-se no sofá e olhou para o vazio. Era difícil apontar exatamente o que a incomodava. Rafael nunca gritava. Não a ofendia diretamente. Ele só… fazia comentários. Pequenos. Inofensivos. Mas cada um deles a fazia se sentir menor, menos capaz, menos ela mesma.

“Não é violência”, ela pensou. “Ou é?”

O silêncio era sua resposta.

Nem sempre a violência psicológica vem com gritos ou palavras ásperas. Às vezes, ela chega de mansinho, escondida em tons brandos e olhares disfarçados. Mas os estragos são reais, e reconhecê-la é o primeiro passo para combatê-la.