Artigos de opinião

Impuros: onde o Estado falha, a moralidade se desfaz

Por Ana Lúcia Ricarte
Advogada e escritora

A série Impuros apresenta uma realidade que ultrapassa o tradicional confronto entre “mocinho e vilão”. Ao acompanhar personagens inseridos em um ambiente marcado pela violência, pelo tráfico e pela desigualdade, a produção provoca uma reflexão sobre as deficiências de um Estado que não acolhe, não cuida e não oferece oportunidades iguais às suas crianças e aos seus jovens, especialmente negros, pobres e moradores de comunidades.

A obra expõe uma realidade incômoda: o peso desproporcional de nascer e crescer pobre e preto dentro de uma favela. Quando as oportunidades diminuem drasticamente e o poder público se omite, estruturas paralelas encontram espaço para ocupar funções que deveriam pertencer ao Estado. Nesse ambiente, revelam-se as contradições de um Brasil profundamente marcado pela desigualdade social e pela corrupção institucional, no qual as fronteiras entre justiça, poder e criminalidade podem se tornar cada vez mais complexas.

Quando o Estado se ausenta, o crime ocupa espaço

Nas periferias, a ausência de políticas públicas capazes de produzir perspectivas concretas de futuro cria um vácuo perigoso. Diante dele, jovens podem encontrar no tráfico não apenas uma possibilidade de subsistência, mas também uma estrutura que oferece uma falsa sensação de proteção, família, poder e pertencimento.

Trata-se, entretanto, de um empoderamento ilusório, sustentado pela violência e simbolizado pelo poder das AK-47, AR-15 e M16. Armas passam a representar uma autoridade construída justamente onde instituições públicas deveriam garantir educação, segurança, assistência social, cultura, esporte e oportunidades profissionais.

Impuros evidencia essa contradição sem precisar transformar criminosos em heróis. A questão levantada pela série é mais profunda: o que acontece quando um jovem encontra reconhecimento primeiro no crime e somente depois percebe a presença do Estado, muitas vezes por meio da repressão?

Mães vivem uma das faces mais cruéis dessa desigualdade

Entre as imagens mais dolorosas dessa realidade está a situação enfrentada pelas mães das comunidades. Muitas descem diariamente o morro para trabalhar e cuidar dos filhos de famílias com melhores condições econômicas enquanto convivem com o medo de ver os próprios filhos serem atraídos pelo tráfico.

Nenhuma mãe gera um filho para entregá-lo ao crime. Entretanto, a ausência de oportunidades demonstra como a desigualdade pode ser severa com essas mulheres e suas famílias.

Essa contradição revela duas realidades convivendo dentro da mesma cidade. De um lado, famílias que conseguem oferecer proteção, educação e perspectivas aos filhos. Do outro, mulheres que precisam enfrentar diariamente estruturas sociais que tornam muito mais difícil garantir essas mesmas condições às próprias crianças.

Um Estado incapaz de acolher, educar e criar oportunidades para sua população mais vulnerável demonstra sua própria fragilidade.

A criminalidade também atravessa estruturas de poder

Enquanto a tragédia acontece nas comunidades, existe outra dimensão que não pode ser ignorada. Na outra extremidade dessa engrenagem, agentes inseridos em estruturas institucionais podem se beneficiar da própria criminalidade que deveriam combater.

Quando integrantes da política, do Judiciário ou das forças de segurança se envolvem em esquemas criminosos ou corruptos, a discussão deixa de ser apenas sobre o traficante que controla determinado território. Passa também pela responsabilidade daqueles que, protegidos por cargos, influência ou estruturas institucionais, contribuem para alimentar sistemas ilegais.

É justamente nesse ponto que Impuros amplia sua discussão. O crime não existe isoladamente dentro das comunidades. Existe uma cadeia muito mais complexa de interesses, dinheiro, corrupção, violência e poder.

Moralidade deixa de caber em respostas simples

Nesse cenário, Impuros transforma a moralidade em um terreno incerto e ambíguo. A produção não precisa romantizar o crime para mostrar que as escolhas individuais também acontecem dentro de circunstâncias sociais profundamente desiguais.

Isso não significa retirar a responsabilidade de quem pratica crimes. Significa reconhecer que combater apenas as consequências, ignorando as condições que favorecem o recrutamento de jovens pela criminalidade, mantém intacta parte importante do problema.

Talvez uma das principais provocações deixadas pela série esteja justamente nessa contradição: quando o Estado chega tarde para educar, proteger e oferecer oportunidades, outras estruturas chegam primeiro.

Enquanto o sistema continuar funcionando de maneira desigual, protegendo determinados grupos e abandonando outros, as fronteiras entre autoridade e criminalidade, justiça e corrupção, bem e mal continuarão ocupando territórios perigosamente próximos.

Ana Lúcia Ricarte
Advogada e escritora