A Noite em que Ana desapareceu

A Noite em que Ana desapareceu

Ano Novo, na minha infância, era sinônimo de correria, barulho e muita comida. Minha mãe liderava a festa como uma verdadeira comandante: distribuía tarefas, dava broncas, e tentava manter todos, inclusive eu, sob controle. Mas, naquele ano, eu decidi dar um toque especial à noite – um toque que quase a levou à loucura.

A ideia surgiu do nada, como as melhores travessuras: E se eu sumisse por um tempinho? Nada muito sério, claro, só o suficiente para ver a reação de todo mundo. O esconderijo perfeito me chamou lá do quarto: o guarda-roupa.

Me enfiei entre os cabides e as roupas dobradas, segura de que seria só por uns minutinhos. Mas o calor, o silêncio abafado e o cansaço do dia longo fizeram sua mágica. Antes que pudesse me dar conta, dormi.

Enquanto isso, na sala, o caos se instalava. Minha mãe, que já estava com mil preocupações na cabeça, notou minha ausência e entrou em modo de busca e resgate. “Cadê a Ana? Alguém viu a Ana Lúcia? Não acredito que ela sumiu justo agora!” Os convidados largaram os copos e os pratos para ajudar. A tensão no ar era tão forte que quase dava para cortar com a faca da ceia.

No meu refúgio de roupas e travesseiros, eu sonhava tranquila, sem fazer ideia de que tinha virado o assunto da festa. Até que alguém abriu o guarda-roupa – talvez procurando uma toalha, ou só por puro desespero – e lá estava eu, dormindo como um anjo.

Minha mãe quase caiu para trás.
— Você está aqui?! Dormindo?!

Com os olhos ainda meio fechados, só consegui perguntar:
— Já deu meia-noite?

Os adultos começaram a rir tanto que minha mãe não teve escolha senão deixar a bronca e as palmadas para depois. Mas ela fez questão de contar a história para cada convidado que chegava:
— “Essa menina foi dormir no guarda-roupa! Quase me matou do coração!”

No final, brindamos ao Ano Novo com risadas e abraços – e eu aprendi que travessuras têm seus limites. Ou pelo menos que é bom avisar antes de sumir, nem que seja para tirar um cochilo.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *